Criar um vasto movimento popular contra o programa da <i>troika</i> e do Governo
Num comício realizado no sábado do centro histórico de Braga, Jerónimo de Sousa apelou à criação de um «vasto movimento popular de exigência de rejeição» do programa comum da troika estrangeira e do Governo.
A luta dos povos é o grande instrumento e a solução para esta crise
Integrado na campanha que o PCP está a levar a cabo por todo o País, com o lema Rejeitar o programa de agressão, lutar por um Portugal com futuro, o comício realizou-se a meio da tarde numa das ruas principais do centro de Braga, quando por ali passavam centenas de pessoas. Que não terão ficado indiferentes à realização do comício e às palavras combativas de Jerónimo de Sousa e Agostinho Lopes: alguns, eventualmente sacudindo complexos, aproximaram-se do palco para as escutarem com mais atenção e de lá não arredaram pé, mesmo depois de solucionados os problemas com a aparelhagem de som, que perturbaram o início do comício.
E ouviram Jerónimo de Sousa passar em revista os aspectos centrais de 100 dias de Governo PSD/CDS e de aplicação do programa da troika FMI/UE/BCE, para em seguida manifestar as suas preocupações com o rumo que segue o País. Para o dirigente comunista, é «imperioso e urgente» dar força e expressão organizada à luta – não só à oposição e resistência a cada uma das medidas, mas igualmente à exigência de rejeição desse «ilegítimo programa político que, a concretizar-se, conduzirá o País à ruína e ao declínio». Esta rejeição, garantiu o Secretário-geral do PCP, tornou-se um «imperativo nacional» e um «objectivo patriótico» face à natureza, conteúdo e consequências desse programa, que caracterizou como sendo de «exploração, empobrecimento e abdicação da soberania nacional».
Perante centenas de pessoas, comunistas e simpatizantes, mas também muitos curiosos, o dirigente do PCP renovou o apelo (feito semanas antes, no grandioso comício da Festa do Avante!) aos trabalhadores, ao povo, aos democratas e aos patriotas para que, «com a sua acção, construam e desenvolvam um vasto movimento popular de exigência de rejeição por parte das instituições nacionais desse espúrio programa de extorsão nacional e exploração do povo». Este é «um objectivo central da nossa luta e da luta dos trabalhadores e do povo para impedir o afundamento do nosso País e salvaguardar os interesses do nosso povo».
As soluções para os problemas do País e para a defesa da sua soberania e desenvolvimento não estão no cumprimento deste programa, nem tão pouco em «soluções criativas ou melhoramentos parciais», como preconiza o PS (que foi, aliás, o seu primeiro subscritor). Pelo contrário, reafirmou Jerónimo de Sousa, «é na sua recusa, na exigência da sua rejeição, na ruptura com as políticas que o moldam, que não se distinguem das que conduziram o País à crise, a não ser na sua aplicação mais concentrada e brutal, que o País pode afirmar um caminho de desenvolvimento e de progresso».
Convergir para 1 de Outubro
Referindo-se às manifestações convocadas pela CGTP-IN para o próximo sábado, em Lisboa e no Porto, Jerónimo de Sousa afirmou que mais do que a participação nessas jornadas, é certo o «efectivo empenhamento» do PCP no contacto e no convencimento de milhares e milhares de portugueses para que «façam ouvir bem alto a sua voz e o seu protesto». Inevitável, para o dirigente do PCP, é a intensificação da luta, nos próximos dias e nos próximos meses.
Dirigindo-se às centenas de militantes e simpatizantes presentes, o Secretário-geral do Partido realçou a importância de «participar com convicção e entusiasmo neste magnífico comício». Mas, destacou, mais importante ainda será que «cada um dos que aqui está se sinta não só mobilizado para a luta, mas sobretudo responsabilizado por contactar, esclarecer e convencer» muitos outros, para que com os comunistas «convirjam no movimento popular que está em marcha pela rejeição do programa de agressão e para que connosco se manifestem em Lisboa ou no Porto no próximo dia 1 um de Outubro».
Na luta dos povos está a solução
Jerónimo de Sousa guardou ainda umas palavras para comentar as declarações do primeiro-ministro, que anunciou a possibilidade de um novo «empréstimo» da troika a Portugal – ou seja, traduziu, um «novo salto no processo de ingerência e agressão contra os trabalhadores e o povo português e no roubo de que somos alvo». «Parece que tínhamos razão quando dissemos que as medidas adoptadas iriam ser sementes de novas crises, fosse em Portugal, na Europa ou no mundo, e a realidade aí está a prová-lo.»
Para o Secretário-geral do PCP, «é grande a incapacidade dos responsáveis políticos e das instituições do capitalismo em, utilizando os seus dogmas económicos e políticos e sempre ao serviço dos tais “mercados”, esboçar sequer um caminho de saída para a crise». A Grécia é o «exemplo acabado dos verdadeiros resultados» destas medidas: a cinicamente chamada «ajuda» é-o apenas para o capital financeiro, para a banca alemã, francesa e holandesa.
Lembrando ainda que os resultados dos programas de ingerência e agressão «não se medem apenas na situação dos países vítimas da tal mal dita “ajuda”», aprofundando a crise na zona euro, Jerónimo de Sousa acusou as instituições europeias e o directório das potências, com a Alemanha à cabeça, de insistir nas exactamente nas mesmas políticas.
O capitalismo e o processo de integração capitalista na Europa estão em «putrefacção» e em «perigoso e acelerado descontrolo», alertou o Secretário-geral do PCP, assegurando que os comunistas não aceitam este rumo: «Não permitiremos ser esmagados pelo desmoronar de uma União Europeia e de uma União Económica e Monetária que, a cada dia que passa, demonstra mais a sua natureza exploradora, opressora e antidemocrática e nos mostra que é profundamente contrária aos interesses do trabalhadores e do povo português.» Existe alternativa, garantiu Jerónimo de Sousa, salientando que os povos da Europa, e em primeiro lugar o nosso próprio povo, «com a sua luta, com a sua História, com a sua consciência, são o grande instrumento e a grande solução para esta crise a que não estão condenados».
Um distrito a definhar
Na sua intervenção, Jerónimo de Sousa chamou a atenção para o encerramento de três mil empresas desde o início do ano e para as quebras históricas no consumo público e privado e no investimento, que se traduzirão no aprofundamento da actual recessão económica. A produção industrial, agrícola e de construção civil recuou a níveis de há 15 anos.
Dirigindo-se aos que «andam para aí a falar da produção nacional», o dirigente do PCP revelou que «um dos principais grupos de distribuição, o Pingo Doce, abusando da posição de domínio do mercado e da dependência dos produtores, comunicou esta semana aos seus fornecedores que vai cortar em 10 por cento o preço que lhes vai pagar no último trimestre deste ano». Assim se somam lucros à custa do definhamento da produção nacional...
Antes de Jerónimo de Sousa, Agostinho Lopes, deputado eleito por Braga e membro do Comité Central, falara da «dramática situação» que se vive no distrito, nomeadamente ao nível da destruição do tecido produtivo. Num encontro realizado antes do comício com a Associação Comercial de Braga, o PCP ficou a saber que só em Setembro faliram, no centro histórico da cidade, cerca de 35 empresas. No distrito, entre Julho e Agosto, em cada dia útil, sessenta novos desempregados inscreveram-se nos centros de emprego, somando-se aos mais de 51 mil anteriormente registados.
Por tudo isto, afirmou o deputado, o PCP vai apresentar novamente na Assembleia da República um Programa de Emergência Económica e Social para o distrito. Cumprimento de um compromisso eleitoral (o PCP «cumpre o que promete», afirmou Agostinho Lopes), esse programa, em fase de discussão pública, pretenderá dar resposta aos principais problemas com que os trabalhadores e as populações do distrito se confrontam. O PCP propõe, designadamente, o aumento do poder de compra, nomeadamente através do aumento dos salários e das pensões; o desenvolvimento da produção nacional e defesa e valorização do aparelho produtivo; a expansão dos serviços públicos.
Agostinho Lopes alertou para outros «programas de emergência» que poderão surgir, por parte daqueles que, quando no Governo, só agravaram a situação do distrito. Nessa altura, era o PSD e o CDS que apresentavam propostas de emergência para o distrito...